quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A heroína da capa rasgada






Ela passou a vida voando de um lado pro outro, mas de tempos em tempos despia da capa e se deixava cair e ficava ali sem pedir ajuda, estirada no chão. Ela era cada sentimento que passava por sua cabeça e nunca gostou da superfície, sempre mergulhou. E por mergulhar sentia cada fagulha de alma que havia em tudo. Sentia cada detalhe que corria no vão mais escondido e isso nem sempre era bom, porque misturava em seu peito o bem e o mal. Tinha o dom de captar num olhar muito mais do que palavras poderiam explicar, era o que fazia de melhor: sentir.

Mas numa queda brusca demais, ralou os joelhos e sua capa fora rasgada. Não era mais a sempre forte, a que mantinha todos ao redor em pé. Descobrira na queda, que de heroína só tinha a capa e que de humana tinha as lágrimas, as quais não precisava sentir vergonha de deixar rolar. Na sua imensa e intensa humanidade chorou pra lavar a alma e unir sua luz e sua sombra.

Quando começou a abrir as dores, a escancarar as feridas, foi quando elas começaram a cicatrizar, a doer menos, a amenizar. A ex- heroína estava começando a aprender o significado da palavra dividir, que era até mágica, transformava muitas vezes uma casa dolorida numa mais arejada e florida.

Sentada na janela do seu quarto estava começando a entender o que era metamorfóse, mas não esperava borboletas, sabia que ela era a própria.

A vida é rasa e ao mesmo tempo de uma profundez que abrange corpo e alma juntos. De neutra não tem nada, sua cor pode ser preto e branco ou multicolorida, meio termo não tem. Aquela mulher que usava capa, que não sentia dor, que não chorava, ficou pra trás. Hoje ela está ciente de que é frágil, de que tem seus limites e do mesmo jeito que respeita o limite alheio, tem aprendido a respeitar o seu. E ela sabe que não é difícil quando ela quer ficar bem, principalmente com ela mesma.

Ela está na estrada caminhando, vai assoviando e aprendendo a falar mais de si, a respiração está mais tranquila porque ela percebeu que o que realmente importa é  respirar amor e h(ar)monia e que não é feio doer, mas o que faz mal é se esconder. 

Tem dentro de si um tesouro guardado e tem percebido que ser humana não é um bicho de sete cabeças.


Meire Oliveira

9 comentários:

  1. Texto que aflorou um lindo amadurecimento humano. Saudades de passear por aqui...

    Beijos, Meire ;)

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  2. Belo texto sobre o ser humano suas dores e medos e possibilidades de renascer.
    bjs

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  3. É né ...as vezes queremos parecer durões...mas é só para nos proteger. É como diz o Padre Fábio:

    "Quanto maior a armadura, mais frágil é o ser que a habita."

    Temos nossas fragilidades sim...e aceita-las já é um grande passo para a transforma-las.

    Beijo grande com direito a "chuvinhas de alpiste" sobre as nossa cabeças para nos alegrar :)

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  4. Meire

    Depois da queda nasceu uma heroína de verdade; gosto de gente que dói, que mostra seus cortes, suas fragilidades, porque tudo que é certinho, perfeito, não tem graça, tipo sem sal, sem açucar. Prefiro as “imperfeições”, com elas crescemos, sua heroína é exemplo desse crescimento. Um VIVA para essa heroína que descobriu que gente de verdade dói mesmo, se mostra, não se esconde. Melhor é ter orgulho do que nos tornamos após as quedas. Um VIVA para todas heroínas de plantão!

    Beijo, moça querida!!!

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  5. Que tudo de bom este texto...

    Bjs lilases....

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  6. Oi Meirinha!
    Que lindo texto! Que lindo despertar para as facetas da vida. Esta descoberta nos faz crescer, embora seja dolorida em muitas vezes.
    Beijinhos!

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  7. Meire há muito tempo não lia algo assim tão profundo, menina é de levantar para aplaudir, cair, ralar, levantar, tornar a cair, é viver mas sem máscaras, sem capaz, apenas sendo nós mesmas, apenas sendo um ser humano lidando com suas fraquezas e entendendo a dos outros, lindo amiga, beijos Luconi

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  8. Oba...já está aberto para comments aqui..Este cantinho sempre me encanta; bom fim de semana Meire =*

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  9. Bom dia menina!!!!
    De visita rápida nos blogs que eu gosto tanto e que graças a Deus tenho vocês no face!!
    Não tenho mais vontade de reabrir o meu, não por enquanto!!
    Beijos!!
    (levei um trechinho e o blog para o face...)

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